sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A Casa aonde nasceu o Dr. Oswaldo Cruz

Visitando o porão (1)

A cidade é instigante por muitos aspectos.
Os assuntos para estudos são muitos neste pequeno município onde estive, durante 3 anos, ensinando aos jovens na faixa de 16 a 20 anos o emprego das técnicas construtivas com terra aplicadas ao restauro.
A começar que o município só é pequeno por sua população, algo em torno de 11 mil habitantes, com a extensão de 617km2 pode-se considerar, em tamanho, um pouco acima da média em nosso Estado de São Paulo.
Outra particularidade é uma questão: como se escreve São Luís do Paraitinga?
A Prefeitura local adota São Luiz do Paraitinga.
Uma cidade situada a meio caminho entre o vale do Paraíba e Ubatuba no litoral norte de São Paulo, surgida provavelmente para coibir o contrabando de ouro da Gerais.
Um sítio muito pitoresco:
"A cidade, por suas características específicas, foi dividida em dois setores para efeito do tombamento:
Centro Histórico I - Área de grandes sobrados, predominantemente do século XIX, no alinhamento do lote e com influências do ecletismo. O conjunto é formado por 171 edificações, em sua maior parte, de uso residencial.
Centro histórico II - Constituído de 262 casas populares, de um ou dois pavimentos, de uso residencial e pequeno comércio." - CONDEPHAAT
Lá nasceram pessoas ilustres como o Prof. Dr. Aziz Nacib Ab’Saber. Dentre suas inestimáveis contribuições foi o responsável pelo tombamento da Serra do Japi há mais de 25 anos. É vigoroso combatente pela preservação da Serra do Mar e realizador de tantas outras contribuições importantes por demais divulgadas.
O Fábio teve o privilégio de ser aluno dele.
Outro ilustre cidadão luisense, responsável pela veia musical que a cidade conserva foi Elpídio dos Santos parceiro de Mazzaropi.
Quando visitar essa magnífica e acolhedora cidade, cuja chegada à noite se assemelha à visão de um presépio, não deixe de observar os recantos e fruir as sonoridades musicais que ela oferece. A Fanfarra, a Orquestra e o Festival de Marchinhas, que é sua marca registrada, são as oportunidades imperdíveis em São Luís do Paraitinga.
Apresentei o cenário em que se insere o objeto da pesquisa. Agora apresento o personagem:
Um ilustre cidadão do mundo, que também é luisense, cuja contribuição nos ajuda a todos pelo mundo afora, Dr. Oswaldo Cruz nasceu em São Luiz do Paraitinga em 5 de Agosto de 1872 na chácara do Dizimeiro, aonde viveu até os 5 anos de idade, indo, então, residir no Rio de Janeiro no retorno de seus pais à cidade de origem.
O objeto da presente pesquisa é a casa onde nasceu o Dr. Oswaldo Cruz, nossa personagem!
A casa foi erigida pelo ajudante Joaquim José Ferreira em 1834.
A propósito, quase 175 anos nos separam de sua construção.
Em nossa cultura de “progresso” as coisas de antigamente não têm valor: são coisas sem importância, feitas sem método. As edificações em taipas são mal acabadas, “coisa de pobres”, são insalubres, coisas de gente que se sujeita a doenças como chagas, etc...
Sirvo-me do relato de minha visita técnica na casa onde nasceu o Dr. Oswaldo Cruz para resgatar alguns conhecimentos e que coloco nos devidos termos. Quem sabe assim modifiquemos a postura diante do antigo. Aliás, o nosso antigo comparado às outras culturas é um quase ontem. Dei-me conta disso quando estive em Arraiolos mais exatamente quando vi a ensambladura em granito: “À VIRGEM NOSSA SENHORA DE FÁTIMA 7-11-947 ARRAIOLOS A SEUS PÉS”.
Sobre a entrada da capela em estilo Manuelino.

Arrailos - 02 junho 2007

Ao virar as costas retirando-me pensava absorto, que bela homenagem feita logo após a segunda guerra mundial... Mas, espere um pouco, falta o algarismo 1 diante do ano!
Pois é, falta realmente o algarismo 1 diante do ano!
Eis a diferença mil anos!
Não que fossem mil anos realmente, mas bem que poderiam ser! Ou, de fato seriam?...
Quando estive em Évora, então, a ficha caiu de vez.
O templo de Diana do século I foi o máximo do choque.
Évora - Templo de Diana 03 junho 2007
Aqui realmente estamos há 2000 anos de distância...
Évora 03 06 2007
Todas as pessoas de minha terra deveriam ter esse tipo de experiência.
Só vivemos a realidade de um país recente. Mantidos por muitas gerações na mais plena ignorância, fomos conduzidos a ter grande avidez pelo novo. Não que isso seja ruim de todo, mas poderia ser bem diferente.
Em nossa bandeira maior temos um lema positivista: “Ordem e Progresso” e na do Estado, a província, “Non Ducor... Duco”.
Estes lemas muito fortes reforçaram o: “São Paulo não pode parar!”.
Este tema será motivo de uma releitura em artigo oportuno sobre a dramática mudança que ocorreu em São Paulo no último quartel do século XIX.
O que quero, além de colocar o leitor no clima das inquietações, também transmitir o pensamento comezinho em minha terra, que sugere que as edificações primordiais foram erigidas de qualquer maneira, sem métrica.
Faço uma afirmação-conhecimento, provocativa: era sem métrica mesmo, lógico! Porque o sistema de medidas oficial era outro, o metro não era o padrão (1).
A medida padrão de comprimento partia de um referencial terrestre, a vara que corresponde a 1/36363636 do meridiano terrestre.
Convertida ao sistema métrico, a vara corresponde a 1,10m.
O múltiplo da vara é a braça que corresponde a 2 varas, ou seja 2,20m = 1 braça
Os submúltiplos são:
1/5 da vara = 1 palmo → 0,22m
3/10 da vara = 1 pé → 0,33m
3/5 da vara = 1 côvado → 0,66m

Desfaço o equívoco, do pensamento de que as coisas eram feitas de qualquer maneira, ao recuperar a figura do almotacé:
“No Brasil, os almotacés passam a atuar no âmbito da criação das câmaras municipais. De acordo com o que determinavam as ordenações, supervisionavam o mercado, os aspectos construtivos e sanitários, de cidades e vilas. Todavia, nos estudos sobre o município e a cidade colonial brasileira, sempre aparecem de maneira acanhada e preconceituosa.”

Nossa História colonial é fácil de ser resgatada, tudo era controlado, tudo era escrito e registrado nos anais das Câmaras. Apesar de muitos rotularem o colonialismo como uma empresa de improviso, onde tudo era provisório, o controle era rigoroso, pelo menos tanto quanto possível.
As posturas construtivas eram rígidas, como haveremos de constatar neste exemplar de edificação com as técnicas construtivas vernaculares.

Postos o pano de fundo e o clima da pesquisa; passemos ao objeto propriamente dito:

Começaremos pelo porão
Fig. 01 - Levantamento cadastral da Prefeitura

Fazendo algumas contas simples:
17,70m : 8,79m ≈ 2,013 → diferença <>
Portanto, podemos afirmar que devido às fissuras existentes nas paredes, estamos diante de um perímetro retangular conformado por um duplo quadrado de 4 braças de lado.

A dimensão de 8,79m : 2,20m (1 braça) = 3,996 ≈ 4,0 exatos

Portanto, podemos representar a figura de implantação do porão como segue:










Fig. 02 - Layout cadastral da Prefeitura em medidas das posturas construtivas do Brasil Império
O porão, que sustenta a superestrutura da casa tem as paredes externas em taipa de pilão com espessura de 4 palmos, 88cm, delimitando um espaço interno subdividido em três partes por paredes com espessura de um côvado, 66cm, na mesma técnica construtiva.
Essas medidas que encontrei sugerem, muito ao contrário da crendice, um rigor construtivo só possível em edificações de alguma relevância.
A escada de acesso principal ao imóvel está apoiada em duas paredes com técnica mista de taipa com blocos de pedra. A entrada principal define, como veremos, o ritmo da fachada com quatro janelas à sua esquerda e duas à direita.
Situamo-nos no tempo, no início do Brasil Império, dos edifícios do segundo quartel do século XIX, existentes em São Luiz do Paraitinga, com um pavimento, erigido a meia encosta, este é um exemplar que denota ter sido o primeiro morador, aquele que provavelmente contratou Joaquim José Ferreira, uma pessoa de posses na comunidade Luisense.
A Chácara do Dizimeiro, sugere a casa do cobrador do dízimo, que nos leva a inferir que não haveria de ser uma casa muito simples.

Tralhas do porão da casa do Dr. Oswaldo - 18 abril 2007
Todos os porões andam cheios de tralhas, algumas servem, outras são apenas entulhos.
Aos alunos ensino primeiro a selecionar e limparmos nossas tralhas.
Assim terminamos nossa visita ao porão.
E lá se vão algumas de minhas muitas tralhas!

(1) – Consultar a 26a Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica em 26 de junho de 2006 – “Adoção do Sistema Métrico Francês no Brasil – Modernização ou Imposição” de autoria da Profa. Viviane de Oliveira Lima.
O sistema métrico Francês foi adotado pelo Brasil em 26 de Junho de 1862 quando Dom Pedro II decreta a Lei n. 1157 determinando, no art. 2o §1o, o prazo de dez anos para a alteração completa dos sistemas que foi aprovada e registrada nos anais da Câmara dos Deputados. Fonte INMETRO.

2 comentários:

lucia disse...

Estava procurando um dado sobre a Casa Oswaldo Cruz e eis que encontro um blog interessante... começo a olhar as fotos e de repente... ué?!! esse é o Paulo!!

Sou a Lucia que era da OLHO DAGUA e trabalhou no curso de restauro em São Luiz do Paraitinga.

Como vai?

Eu estou bem.

Não trabalho mais com o Carlinhos.

Estou em uma outra empresa de projetos e eventos.

Você continua tendo a Wilma como parceira?

Se quiser fazer contato, meu e-mail pessoal é lucia.atriz@gmail.com

Um abraço e tudo de bom.

Lúcia

Aline Cristina disse...

Olá Paulo!! Sou estudante de Arquitetura e Urbanismo pela UNIP São José dos Campos, e acabei de encontrar seu blog. Estou desenvolvendo um trabalho sobre a casa de Oswaldo Cruz, e tinha algumas dúvidas sobre a técnica utilizada, se era taipa ou pau a pique. Mesmo tendo acesso livre à casa, pois trabalho em São Luiz, nunca chegava à uma conclusão sobre isso. estou certa de que seu blog vai me dar uma ajuda significativa.

Meu email: alinecris858@hotmail.com
Se tiver um tempinho e quiser conversar sobre tudo que vem acontecendo por lá me escreva.

Abraço
Obrigada pela ajuda
Aline Cristina